Como construir uma hipótese de trabalho e apresentar bem a sua pesquisa

Flickr credit: Question Mark by Crissie Maciel

Autor: Adrian Sgarbi. Tempo estimado de leitura: 7',08''

Um dos aspectos da pesquisa que causa grande preocupação é a elaboração de uma hipótese de trabalho. Porque uma hipótese de trabalho bem formulada pode ser a diferença entre saber qual o passo seguinte ou ficar perdido por muito, muito tempo.

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Ao participar de discussão de um projeto de tese, escutei de um dos membros da mesa algo que me deixou intrigado. Depois de eu ter dito que se inexiste ponto de partida definido e compreensível não há projeto de tese por ausência completa de hipótese, ouvi a afirmação de que o trabalho sob análise tinha muitas hipóteses. Repliquei que não. O que havia eram apenas perguntas em aberto e que outras poderiam ser feitas. Explico.

O que é uma hipótese?

Uma hipótese é uma afirmação que pode ser desafiada. Como tal, uma hipótese de trabalho é uma frase que possibilita questionar o "Como?", "De que modo?" e o Por quê? de algo. O objetivo de uma hipótese é aclarado com a questão "Para quê?"

O que não é uma hipótese?

Imagine que seja afirmado que determinados países apresentam aspectos em comum. E que, como tese, quer-se saber se "o direito pode ser instrumento de desenvolvimento real nesses países, considerando o que apresentam em comum". Note que sem que exista alguma definição de desenvolvimento "real" e o que se está definindo por "direito", pouco importa o que seja dito a respeito das "características que os países têm em comum". Porque sem saber o que se está designando de "direito" e desenvolvimento "real" é impossível tratar de qualquer tipo de relação de relevância, sejam quais forem os aspectos em comum destacados. 

O ponto é que não há nada a ser desafiado no trabalho acima, ele apenas traz dúvidas a respeito do quê ele está tratando. Por exemplo: Qual o significado de desenvolvimento "real"? Por "direito" entende-se uma espécie normativa em particular ou pouco importa a espécie normativa e a matéria? Qual a importância dos aspectos em comum a esses países para o estudo? Na falta desses aspectos em comum, não poderia ocorrer um "desenvolvimento" que seja "real"? Em resumo, aqui temos perguntas, não hipóteses.

O que é uma boa hipótese

Imagine agora um doutorando que diz que determinada planta, em razão de suas peculiaridades, cresce mais rapidamente quando exposta à luz. Assim, apresenta dados de variação de crescimento da planta ao longo do ano apontando para surpreendente crescimento em época em que há mais luz solar incidente durante o dia. A hipótese é clara: "Quando exposta  à luz do dia, a planta X cresce em maior velocidade em razão do elemento Y que ela possui". Portanto, o pesquisador relacionou o elemento Y e o crescimento acelerado da planta ao fator "luz", razão pela qual apresenta dados que parecem reforçar a afirmação inicial.

Suponha que um avaliador pergunte se o doutorando considerou não apenas a luz, mas o "aumento de temperatura". O que o avaliador está fazendo é sinalizando uma outra possibilidade explicativa que deveria ser considerada, "o aumento de temperatura" como fator do crescimento acelerado da planta. Portanto, o avaliador está colocando uma questão que poderia negar a hipótese do doutorando: caso seja a temperatura e não a luz, independentemente da época do ano, é possível manter o crescimento acelerado da planta apenas aumentando a temperatura da estufa, haja luz incidente ou não. O problema é que o doutorando deveria ter isolado "luz" e "calor" para saber ao certo o que está ocorrendo e responder satisfatoriamente ao avaliador.

Sem um ponto de partida definido, seria impossível ao avaliador elaborar a sua questão decisiva. Apesar do problema na abordagem do doutorando, a sua hipótese foi bem formulada.

Em resumo, uma hipótese de trabalho deve ser: uma afirmação; simples; sujeita à negação.

  • Afirmação: uma hipótese não é uma pergunta, uma hipótese é uma afirmação sobre algo.
  • Simples: uma boa hipótese é escrita em linguagem simples de maneira a expressar exatamente o que está em jogo.
  • Sujeita à negação: uma hipótese deve poder ser negada. Caso seja impossível estabelecer a sua negação dificilmente será considerada uma hipótese.[1]

 Aqui alguns exemplos:

  • Hipótese sociológica: ao interferir em uma cultura inserindo técnicas de produção de alimentos em larga escala, a sociedade em questão estará apta à autonomia alimentícia.
  • Hipótese biológica: a exposição de fetos a raios X até o sexto mês de gestação altera a sua formação genética.
  • Hipótese jurídica: a obrigação dos juízes de decidir casos em contexto de pouca técnica legislativa amplia a discricionariedade judicial.
  • Hipótese histórica: ao longo da metade do século XVII até o século XX da história europeia, a sexualidade passou de um período em que expressões e conversas sobre sexo eram livremente manifestadas até o período em que essa liberdade foi reprimida, tornando-se proibida.[2]
  • Hipótese física: quaisquer objetos soltos a partir da mesma altura acima da superfície da terra atingirá o solo ao mesmo tempo, sempre que a resistência do ar não constitua um fator interferente.

O que se entende por negação

Hipóteses são afirmações provisórias. Por isso, elas podem ser rejeitadas. O "como" rejeitar uma hipótese depende do seu objeto. Basicamente, uma hipótese pode ser negada de dois modos: negada empírica ou teoricamente.

  • Negação empírica: é a que possibilita afastar uma hipótese empírica. Uma hipótese empírica é aquela que repousa em fenômenos observados e medidos.
  • Negação teórica: é a que possibilita, por não contradição de seus argumentos, sustentar-se uma afirmação. Uma hipótese teórica fixa-se fundamentalmente em documentação, interpretação de dados ou desenvolvimento de métodos.

Qual tipo de pesquisa?

  1. Básica v. aplicada. Pesquisa básica é a projetada a fim de oferecer um melhor entendimento de um fenômeno, tema ou método em seus fundamentos.  Isso não significa que ela não possa vir a ter aplicação. Por exemplo, pesquisas sobre como o cérebro funciona na tomada de decisões vem sendo introduzidas em estudos específicos de decisões econômicas, militares sobre pressão, empáticas, judiciais etc. Pesquisa aplicada é a destinada a solucionar um problema específico em uma circunstância particular, como a baixa produtividade de um departamento de uma empresa. 
  2. Exploratória v. confirmatória. Pesquisa exploratória é a pesquisa que visa à melhor definição ou design de um fenômeno ainda desconhecido. Normalmente esta pesquisa exerce importante influência em estágios iniciais do conhecimento quando se busca familiaridade com algum objeto. Confirmatória é a pesquisa que incide sobre algo que já se tem uma ideia do que está acontecendo. Nesse tipo de pesquisa já há uma ou mais teorias, de modo que seu objetivo é descobrir se alguma delas é apoiada por fatos.
  3. Quantitativa v. qualitativa. A pesquisa quantitativa tem por base a coleta de dados numéricos a fim de explicar determinado campo de interesse. Normalmente, funda-se em estatísticas e conclusões com base em projeções estatísticas. Pesquisa qualitativa é a baseada em observação direta do comportamento ou em dados narrativos, de modo que tem por característica sínteses e análises verbais.

Em geral, pode-se dizer que estudos de confirmação tendem a ser quantitativos ao passo que estudos exploratórios tendem a ser qualitativos.

Que tipo de conclusões?

Uma pesquisa pode resultar em variados tipos de conclusões. As mais comuns são: a descritiva, a avaliativa e a prescritiva.

  • Conclusão descritiva: trata-se da conclusão que seleciona os principais aspectos encontrados ao longo da pesquisa. Uma forma eficiente de estabelecer uma conclusão descritiva é destacar as impressões dominantes do trabalho, capítulo por capítulo.
  • Conclusão avaliativa: trata-se da conclusão que enfatiza os aspectos positivos e negativos encontrados na pesquisa. Uma forma eficiente de concluir de maneira avaliativa é estabelecendo comparações dos resultados.
  • Conclusão prescritiva: trata-se de conclusão que recomenda medidas com base nos resultados obtidos. Uma forma eficiente de escrever uma conclusão prescritiva é relacionando as medidas recomendadas a cada aspecto do fenômeno estudado.

Nada impede que uma pesquisa contenha mais de uma conclusão. Por exemplo, uma pesquisa pode apresentar forte aspecto descritivo e depois terminar com algo avaliativo. De todo modo é importante evitar cruzamentos de informação porque isso pode resultar em debilidade da pesquisa. Embora seja comum esse engano, não há relação necessária entre uma descrição e uma recomendação ou, mesmo, entre uma avaliação e uma prescrição. Qualquer vinculação estabelecida entre essas conclusões deve ser argumentada.

Como apresentar bem a sua pesquisa

Uma forma simples de apresentar a sua pesquisa é dividindo-a em três partes.

Eu estou estudando (1. resuma o seu tópico) porque eu quero descobrir (2. identifique o que você não sabe) de modo a ajudar o meu leitor a (3. informe a relevância de sua pesquisa).

Portanto:

"Estou analisando a cultura X com o objetivo de descobrir se as condições A e B constituem impedimento a produção de alimentos em massa nessa mesma cultura, de modo que a interferência Y possa ser feita de forma menos custosa economicamente para os seus investidores".

Assim, a hipótese dessa pesquisa pode ser apresentada da seguinte forma: 

"As condições A e B constituem impedimento à produção de alimentos em larga escala na cultura X".

Toda pesquisa tem uma hipótese?

Não. Existem pesquisas, muito úteis, que são apenas exploratórias. Sua finalidade é abrir campo para que se possam construir hipóteses, como em geral ocorre em fase inicial de pesquisas de doutoramento. Portanto, o objetivo é apresentar novas evidências, ideias, clarificar algo, e até mesmo concluir que algo não existe.  

Em dissertações é comum a eleição de pesquisas exploratórias a fim de apresentar uma síntese crítica de determinada teoria ou problematizar certa prática. Técnica típica da pesquisa exploratória é a do estudo de caso, a de observação e a de análise histórica de informações.

Mãos à obra!

[1]: Observe-se que as hipóteses nem sempre podem ser negadas desde já. Portanto, o que se deve entender por "sujeitas à negação" é: negáveis. Porque há hipóteses que, para poderem ser negadas, dependem do avanço tecnológico. Mas ainda que tenham "negação diferida" elas são passíveis de serem negadas.

[2]: Esta hipótese histórica é conhecida como "hipótese da repressão". Michel Foucault a contestou no livro "A História da Sexualidade".