Quando citar faz bem

Flickr credit: Citation Needed by Dan4th Nicholas

Autor: Adrian Sgarbi. Tempo estimado de leitura: 5',15''

Você quer mesmo que eu responda? Sim, eu já citei mal. Mais de uma vez. Cometi o pecado do excesso e também o da usura. Pronto, disse. Vamos virar esta página, tá bom?

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Citar significa colocar um ingrediente ativo em seu texto. Portanto, uma citação deve exercer alguma função; deve cumprir uma tarefa no conjunto do seu trabalho. Não há nada mais básico do que isso. Puro bom-senso.

Mas com exceção das situações graves que levam a acusações de plágio em bancas, parece que as citações ficam em posição lateral na análise das dissertações e teses. Poucos prestam atenção ao seu uso. Quando muito, observa-se que determinada obra citada no texto não está com a sua referência completa na bibliografia. Contudo, citar bem é mais do que colocar a referência completa da obra usada na bibliografia. Muito mais.

Por que citar?

Você já deve saber que deve citar para distinguir as suas ideias das de outra pessoa. Isso parece ser claro. Mas há outra razão. Igualmente importante. Você deve citar para que o seu leitor possa seguir os seus passos e desafiar o seu argumento. A credibilidade do seu trabalho descansa em ambos esses motivos.

Contudo, tenha cuidado. Isso não significa que você deve sair citando como um louco por aí. Porque citar é tarefa seletiva. Trata-se de seleção do que é útil e do que não é útil; do que participa do seu argumento e do que nele sobra.

Talvez você esteja se perguntando como fazer isso. Como selecionar. Bem, eu posso começar e depois você me diz o que pensa.

Coloco desse modo. Existem situações em que citar é desnecessário, situações em que citar é altamente recomendado, situações em que citar é obrigatório e outras, ainda, em que, caso você cite, isso indica que algo está mal em seu trabalho.

Quando não é necessário citar

Sou de opinião de que não se deve usar citação quando a informação pertence ao "conhecimento comum". Ou seja, quando algo é considerado um fato aceito ou quando se espera que o leitor já conheça o assunto. Mas tenha cautela com essa recomendação. Tudo depende do propósito do seu trabalho e do público-alvo. O que pode ser óbvio para determinado grupo pode não ser tão óbvio para outro. Outra vez, bom-senso.

Quando citar faz bem

Elimine citações inúteis e que nada acrescentam ao trabalho. Quatro, ao menos, são as situações em que recomendo o uso de citação.

Você deve usar citação quando...

  • Encontrou um texto com suficiente precisão técnica de que você necessita. Caso algum autor tenha explicado de modo claro algum conceito ou questão, cite esse autor. Não tente criar você mesmo algo já existente e que atende, de forma adequada, o seu propósito.
  • Pretende sinalizar posições a favor e contra a sua hipótese. Quando você estiver argumentando e houver posicionamentos a favor ou contra o que você está dizendo, faça referências às obras e indique quem está a favor e quem está contra. Isso ajuda o seu leitor a compreender a sua posição sobre o tema.
  • Deseja resumir uma controvérsia em seu trabalho. Caso você esteja analisando algum debate que é resumido por algum autor, cite a obra. Isso poupa tempo e você poderá seguir direto ao exame da questão.
  • Quer estabelecer um recorte no seu discurso. Essa é uma citação elegante. Deve-se usá-la para dizer ao seu leitor que em atenção aos objetivos assumidos não há espaço para explorar certo aspecto do tema. Depois, refira-se a obra que desenvolve o que você não teve como trabalhar. Seja informativo.
  • Tem a intenção de proteger-se quanto a interpretações alternativas. Se você assume determinada interpretação, destaque posições alternativas caso existam. Isso contribui para que o seu leitor tenha uma percepção ampla do recorte que você realizou. Além disso, alerta que você não ignora a possibilidade, mas que, para efeitos do seu estudo, ela não será objeto de sua análise.

Quando citar é obrigatório

Você deve necessariamente fazer uso de citações quando o seu texto:

  • Reproduz palavras de outra pessoa. Essa é uma regra elementar. Caso você esteja usando palavras de outra pessoa, indique a referência. Tanto é assim que desconsiderar esse conselho constitui caso de plágio evidente.
  • É uma paráfrase de uma fonte. Uma paráfrase é a reafirmação de uma ideia expressada por outra pessoa através do uso de outras palavras. Portanto, quando você usar as suas palavras para transmitir a ideia de outra pessoa, cite a obra parafraseada.
  • Traz tabela, estatística, ilustrações de outra obra. Ao usar material que foi produto do trabalho de outro pesquisador, respeite esse trabalho indicando a fonte. Esse é um reconhecimento mínimo pelo esforço de alguém que se preocupou em apresentar dados organizando as informações de que você faz uso. Além disso, ao citar dados que estão em outro trabalho, contextualize. Isso é importante para evitar a interpretação incorreta dos mesmos dados, por estarem desprendidos de sua fonte.

Quando sei que algo está mal

Conheço três situações as quais me deixaria muito feliz se você evitasse a todo custo. Porque, quando as vejo, sei imediatamente que algo está mal no trabalho que leio. Fica a dica.

Com o diabo e a água santa. O problema de ser pouco criterioso com as citações é reunir autores que não dialogam entre si como se estivessem dizendo a mesma coisa. Isso atesta que você não leu o que está citando, que não domina o assunto, ou, ao menos, que é pouco criterioso. Nada bom, não é mesmo? Ademais, reunir autores assim, em uma mesma nota de pé, sem qualquer informação adicional, apenas confunde o seu leitor.

Quero chegar a um milhão. Você já viu um texto em que a nota de pé de página era maior do que o corpo do próprio texto? Eu já. Mais da metade da página era nota de pé. Todas com referências bibliográficas. Quando vejo isso me pergunto o que passa pela cabeça do sujeito que faz algo assim. Deseja chegar a um milhão de citações? Não gaste papel dessa maneira ou o brilho da tela do computador. Como disse, uma boa referência é uma referência que é útil. E pouca utilidade há em ser pedante.

Olhem, eu sei chinês! 引用 Ok, você gosta de estudar línguas. Mas chinês no pé de página? Sério?1 Quando você citar alguma obra em língua estrangeira, seja qual for, traduza. Demonstre ao seu leitor que você deseja que ele siga os seus passos caso ele queira contrastar a sua opinião com a do texto citado. Portanto, ajude-o traduzindo a passagem citada e indique que a tradução é sua. Esse é um ato de generosidade com o seu leitor que será recompensado pela seriedade que você comunica.

Ah!, faltou esse autor!

Essa parte vai como um extra.

Se as três situações anteriores são desconcertantes para o autor, para quem argui nada mais estranho do que apontar que algo falta na bibliografia sem apontar o motivo. Quando estou em uma banca e escuto alguém arguindo dizendo que “faltou citar um autor” me vejo esperando o “porque...”.

Como disse, uma citação deve ter uma função no texto. Portanto, não faz qualquer sentido dizer que um autor está faltando na bibliografia sem justificar com alguma perda de função argumentativa no texto.

Assim, caso você se encontre algum dia nessa situação, recomendo que você pergunte a razão pela qual o arguidor considera que usar determinada referência é importante no contexto do que você escreveu. Caso não haja explicação satisfatória, simplesmente a ignore e seja feliz.


  1. Caso verídico.