Ei, calma! Isso é uma tese, não o prêmio Nobel!

Flickr credit: Nobel Prize by La Marga

Autor: Adrian Sgarbi. Tempo estimado de leitura: 5'25''.

Uma das aflições de todo doutorando é não ser capaz de encontrar uma ideia que seja original. Doutorandos sabem que ter uma ideia original é importante porque é disso que se trata uma tese. Mas você sabe identificar quando você tem uma ideia original? Ou quando você tem uma ideia que vale a pena ser desenvolvida?

*   *   * 

Ao receber o tweet de @Leof10 pensei em um artigo que li em 2003. Seu título era intrigante: It's a PhD, not a Nobel Prize.1 @Leof10 concluiu o mestrado e decidiu seguir com o doutorado. O problema é que ele ouviu que o seu trabalho agora deveria ser original. Demonstrando muita preocupação, ele pergunta: "Poderia me dizer o que é uma tese original?" E depois: "Como eu encontro uma?".

Muitos doutorandos, na busca de um trabalho como esse, apresentam comportamento claramente bipolar. Oscilam de pensamentos que vão da megalomania eufórica até o de serem uma fraude absoluta e, em sua miséria, temem que logo todos descubram isso. Confesso que passei por ambas as fases há pouco mais de uma década.2

Assim, @Leof10 tem razão em querer saber desde já o que é isso que chamam na academia de "originalidade". Porque se você escreve um trabalho e conclui que "em marte homenzinhos verdes comem de sobremesa sorvete de flocos com mostarda" isso realmente seria original, mas não creio que com esse trabalho você obteria o seu doutoramento.

É comum encontrar em programas de doutorado a seguinte frase, ao descrever o que se espera de um trabalho final: "Trabalho original que oferece significativa contribuição ao conhecimento". Isso pode ser traduzido da seguinte maneira: "original é o trabalho que possui a característica de ser uma 'novidade' em determinado campo de conhecimento e, ao mesmo tempo, é 'relevante' na opinião de outros pesquisadores da mesma área".

Se existe uma "regra de ouro" para encontrar uma ideia original ou uma ideia que vale o esforço de ser desenvolvida, tenho para mim que essa regra é "conheça o seu campo de interesse". Porque é desse passo inicial que será possível alcançar os objetivos da "novidade" e "relevância" que se espera no final da sua jornada.3

Para entender o uso prático dessa regra é suficiente que você repita e complete a seguinte frase: "Conhecer o meu campo de interesse é importante para saber" …

  1. … se a minha ideia foi trabalhada por outras pessoas do mesmo modo com que eu a estou trabalhando agora. Caso você entenda que a sua ideia jamais foi trabalhada por outras pessoas do modo como você a trabalha, ela será uma "novidade";
  2. … se o meu trabalho importa em minha área. Caso pessoas de sua área estejam convencidas do valor da novidade que você está apresentando, ela será "relevante".4

Em alguns países, para provar que você tem algo assim, a exigência é publicar três artigos em revistas especializadas com peer review.5 Em outros, como no Brasil, você terá que provar isso ao seu departamento e a profissionais de fora do seu departamento. Por essa razão, você encontrará na composição de sua banca membros do departamento de sua e de outras universidades.6 Seja de um modo ou de outro, o ponto é que esses profissionais, ao analisarem a sua tese, representam a "comunidade acadêmica" na decisão sobre o valor ou relevância da novidade que você está apresentando em um campo de interesse específico.7

Entendido o significado de "originalidade", aconselho agora que você ajude que a sua tese seja reconhecida apresentando uma proposta clara de tema. O motivo é simples: para que alguém possa avaliar a qualidade de seu trabalho, ele deve entender para quê o seu trabalho foi elaborado. Facilita a compreensão de sua tese se ela puder ser reduzida a alguma das três frases abaixo.8

  • "Estou trabalhando o tema A porque quero descobrir Como? Por quê? De que modo? B, de maneira que eu possa ajudar outras pessoas a entenderem Como/Por que/De que maneira C";
  • "Estou trabalhando o tema A porque quero descobrir se B explica, resolve, equaciona C. Caso assim seja, penso que estarei contribuindo para D";
  • "Estou trabalhando o tema A porque quero descobrir se se trata de B de modo a poder responder como corrigir C".

Nos últimos anos, muita coisa mudou nos programas de doutorado. A seleção era feita por e para um professor-orientador; depois, passou a ser uma seleção departamental.9 Aliás, do modelo de orientação unipessoal, hoje é comum encontrar instituições que privilegiam orientações coletivas.

Independentemente do modelo de orientação adotado por sua instituição, você deve esperar que o seu orientador seja franco a respeito da "novidade" e "relevância" de sua tese. Ele é um agente central desse processo. A propósito, o foco do artigo de 2003 é a análise das expectativas das bancas quando avaliam um trabalho acadêmico, como uma tese doutoral; e você deve atender, como primeiro passo, as expectativas de seu orientador.10

Assim, caso você procure o seu orientador e diga a ele que você não tem a mínima noção sobre o que você quer trabalhar como tese, ele muito provavelmente perguntará qual o tema que mais atrai a sua atenção.11 Daí ele terá condições de recomendar uma série de leituras. Observe que ele não está dizendo com isso que "você vai usar toda a literatura recomendada" ou que "você deve começar a escrever a sua tese". O que ele está te dizendo é: "você deve conhecer mais o seu campo de interesse".12

Portanto, @Leof10, lembre-se de que você está à procura de uma tese de doutoramento; deixe o prêmio Nobel para mais tarde. Então, calma; não se desespere, ok? Agora, para chegar a sua tese, essas são as minhas dicas:

      • Tenha uma conversa franca e aberta com o seu orientador;
      • Leia, leia, leia!; e
      • Formule a sua ideia de modo objetivo.

      Apenas depois disso é que o seu orientador poderá dizer se a sua ideia é original ou se você está tratando de marcianos com gosto pouco comum para a sobremesa.


      1. Essa a referência completa: Mullins, Gerry/Kiley, Margaret. "'It's a PhD, not a Nobel Prize': how experienced examiners assess research theses", Studies in Higher Education, vol. 27, n. 4, 2002. 
      2. Há quem diga que se podem notar traços eufóricos e de sentimento de miséria ainda hoje em mim. Por favor, não acredite nisso. 
      3. No caso de dissertações de mestrado, o que se espera é a exposição de um tema que seja interessante (e o seu orientador é a chave para avaliar inicialmente esse aspecto) e a coerência expositiva do trabalho, demais de sua honestidade expositiva (que não seja um plágio). 
      4. Outra vez: para mestrandos é o aspecto da relevância que valida o trabalho final do curso em uma dissertação escrita de modo coerente e honesto. 
      5. Avaliação realizada por pessoas com competência na área. 
      6. Isso para programas de doutorado. No caso de programas de mestrado, o que se exigem são três professores de seu departamento. Um deles é o seu orientador. 
      7. Note que o desafio em se obter esse aval de importância não é igual em todos os campos. A princípio, em um campo inédito de pesquisa, a sua contribuição pode ser menos difícil de encontrar que em um setor bastante sólido. Nesse caso, para mostrar o valor de sua descoberta, você terá um padrão mais difícil a alcançar. 
      8. Aliás, isso vale tanto para dissertações de mestrado quanto para teses de doutoramento. 
      9. Regra geral, a seleção de mestrado é realizada por seleção departamental. Apenas depois de algum tempo cursando o programa é que o orientador é escolhido. 
      10. Tão importante é a avaliação da comunidade acadêmica que os programas de pós-graduação em geral possuem um "exame de qualificação de tese". Esse "exame de qualificação" é uma fase prévia à defesa de tese e que cumpre o propósito de compartilhar com o orientador a responsabilidade de opinar sobre a novidade e valor de seu trabalho ainda em elaboração. 
      11. Certo é que apresentar uma ideia de tese constitui parte do processo seletivo de muitas universidades. De todo modo, essa avaliação feita no processo seletivo é superficial e não significa necessariamente que tudo vai bem em seu projeto. 
      12. Erro comum, principalmente em dissertações de mestrado (mas presente em algumas teses de doutoramento), é o uso de citações de tudo o que o candidato a mestre leu em sua vida. Note que existem regras básicas para o uso de citações. E uma citação pode e deve estar em seu trabalho, basicamente, quando: 1) o objetivo é preservar a precisão técnica; 2) marca posição a favor ou contra a sua hipótese; 3) sintetiza a controvérsia que se analisa; 4) antecipa interpretações alternativas. Portanto, usa-se quando a citação é útil ao seu argumento.